terça-feira, 14 de junho de 2011

Não tenhas nada nas mãos


Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Prosaico Amor

Uma lembrança de posse
outra vez tentativa
de querer
complicar o erro
sem perder
a suave lembança

não existe garantia
que toda saudade
quando dita
signifique alguma coisa
senão aquilo que mais valioso pode ser

e ser complicado é um erro
esquecido na mentira
quando amiga
de um silêncio fotográfico
e uma vontade
que nunca ganha

terça-feira, 7 de junho de 2011

As Três Palavras Mais Estranhas

"Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,

destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,

crio algo que não cabe no que ainda não existe."

- Wislawa Szymborska

domingo, 5 de junho de 2011

Sonhos

naqueles olhos
tão úmidos
que pediram uma voz
sem razão ou escolhas

desprovidas de coragem
apenas uma tentativa
de que alguma dia
as promessas
sejam mais do que reflexos
um pouco mais
que um espelho
e uma imagem estática

um desejo dizendo
adeus a toda preferência
das escolhas já feitas
pois não há memória
que suporte
nenhum discurso profissional

e não há saudade que aguente
uma imagem sussurante
que se aproxima
outra vez lá de longe
novamente
cercado de caminhos
que podem ser um alívio
ou apenas um sonho