quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A explicação

...Está certo, deve-se respeitar a crença dos outros. Talvez a descrença seja apenas uma falta de imaginação. São tantas, tão variadas e tão literariamente atraentes as explicações metafísicas sobre o que, afinal, nós estamos fazendo neste mundo e o que nos espera no outro que não crer em nada, longe de ser uma atitude racional e superior, é uma forma de burrice.

De não saber o que se está perdendo. O negócio é ser pós-moderno e desistir conscientemente do racionalismo, pois, se as explicações finais são tão impossíveis quanto as utopias — e a própria física, quanto mais descobre sobre o mundo, mais perplexa fica —, então o negócio é voltar à mágica e ao deslumbramento primitivo, que são muito mais divertidos.

É verdade que eu sempre achei a explicação de que não há explicação nenhuma, ou pelo menos nenhuma que o cérebro humano entenderia, a mais fantástica de todas, mas reconheço que é um sumidouro.

[...] É difícil lidar com toda essa herança que a gente recebe junto com um corpo e uma mente, uma vida finita num universo infinito, sem nem um manual de instrução. No escuro, todas as respostas são válidas, todas as crenças são respeitáveis...


(Luiz Fernando Veríssimo)

Hoje à noite

Algures
talvez lá exista
semelhanças
luares ou sóis
acalento musical
movimento verbal
esperanças também?

Intermináveis números
insuficientes
diante do silêncio

E se lá
dragões e olhos
exercem o mesmo fascínio que cá
continuamos, portanto
deuses ou crentes?

hoje à noite
não preciso das estrelas
basta o céu
e a dúvida
de que
entre bilhões
uma outra arte exista

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Em favor do Homem

Quero conjugar um bêbado
mexer o corpo do artista
esfriar uma estrela
e pagar o aluguel torturado

Sufoco louco
esta nuvem manchada no céu
lembra o doente
que não desfaz a imagem
de mil sonhos imaginados

Mesmo assim
nada inútil existe
numa dança
que fabrica esperança

ou num foquete
sem destino breve
nele existe
um futuro sem nome
uma gentileza que nasce

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Finitude silenciosa

Aquilo que tira o cansaço
o limite do não fazer
que queima o sono
e evapora a quietude

Aquilo
que apesar da aflição
não aparece senão em crenças

Aquilo
que brota em essência
mas não confessa
a certeza de existir

Aquilo
sem esperança para alguns
- salvação para outros

Aquilo
que transforma mentira em poesia
- verdade em dúvida

Aquilo
Uma passagem
sem descanso
finitude silenciosa

Assim deve ser
pois
Aquilo
é o caminho
que justifica
a natureza
que todos dias
não se faz por direito
mas sim por acaso